Entrevista

Depois de um milhão de anos sem atualizar o blog, taí uma entrevista que dei pro caderno especial de onze anos do O Jornal de Hoje aqui em Natal, onde eu publico charges e as tirinhas do Brummmmm!!! diariamente (para ver mais acesse www.chargesdobrum.zip.net) e que nesses últimos dias, junto com o povo da Terceirize, implantamos o novo projeto gráfico.

Desenhar o dia-dia

Daniela Pacheco - Editora de Cultura

Quantos desenhos ilustram o cotidiano de tanta gente e muitos nem percebem que eles estão ali no canto da folha de um papel qualquer, pode ser numa folha de um importante periódico, nas revistas em quadrinhos que são compradas na banca de revistas no final de semana, até mesmo na bula de remédio. O fato é que eles estão ali e ocupam um espaço importante no dia-dia de todos. O JORNAL DE HOJE bateu um papo com o desenhista Brum que consegue com um lápis grafite nas mãos transformar situações cotidianas em arte. Ele é chargista deste vespertino e é desenhista dos bons para quem não o conhece, faz maravilhas. Sempre muito criativo, desenha suas charges com humor, inteligência e crítica.

O Jornal de Hoje - Como é viver da arte de desenhar?

Brum: É algo masoquista, sofremos, mas amamos. Infelizmente o profissional não é tão valorizado quanto merece, muita gente acha que isso não é trabalho e não nos paga o preço justo. Quebrei muito a cabeça até dar a sorte de cair num lugar que valoriza essa arte. Meu pai mesmo, até pouco tempo, me perguntava quando que eu arrumaria um emprego. Aí a gente acaba tendo que arrumar outro trabalho para garantir o arroz com feijão e virar as madrugadas desenhando, pois esse lance de rabiscar vicia. Meus bolsos vivem lotados de papel rabiscado. Mas apesar disso tudo é maravilhoso. A gente acaba se divertindo. Volta e meia encontramos um louco que se diz fã e nos faz um elogio. Isso compensa todas as olheiras e calos nos dedos. Até meu pai se rendeu e vive me ligando para dar idéias. A tal da arte contagia.

 

JH - Conte um pouco sobre a sua trajetória profissional?

B - Me formei em publicidade pela ESPM e trabalhei muito tempo nessa área. Mas esse “glamour” do mundo publicitário não é minha praia. “Sou mais da cana do que do wishky”. Aí larguei tudo pra ficar só com os desenhos.

 

JH - Como surgiu a idéia de começar a seguir na arte do desenho?

B - Pensa comigo: Carioca, que não sabe nada de futebol e samba igual a uma pedra. Ou ia pra casa ver desenho e ler gibis ou ficava na calçada, sozinho, olhando os amigos jogando uma “pelada”. Daí entre uma revistinha aqui e um “Tom e Jerry” ali, comecei a querer reproduzir o que via. Quando percebi nem copiava mais as matérias no colégio e fui parar na coordenação diversas vezes por fazer caricaturas dos coleguinhas e professores. Acabei ficando popular devido os rabiscos. Aí um, me pedia um desenho pra um cartaz, o outro pra uma camiseta e quando vi passei a viver disso.

 

JH - Você tem noção de quantos desenhos já fez ?

B - Desenho profissionalmente há uns 14 anos, nesse tempo fiz diversos livros infantis, ilustrações publicitárias, charges, desenhos pra sites e outros. Tem dias que faço mais de 10 desenhos. Acho que se guardasse R$1 de cada um, estaria milionário. É impossível contar. Só nesse primeiro ano de O JORNAL DE HOJE já foram mais de mil charges. 

JH - Como é o seu trabalho?

B - Divido meu trabalho em três partes: as charges, as ilustrações e os infantis. A charge é aquele puxão de orelha que queria dar em determinada pessoa (na maioria políticos) e certamente nunca me deixarão dar (já me criticam nas charges, imagine ao vivo). As ilustrações são o meu ganha pão, é a parte do meu trabalho onde tem menos da “pessoa” Brum e mais do “profissional” Brum, é onde me esforço pra fazer algo criativo que traga resultados satisfatórios para o cliente e para meu portifólio. Os infantis é a parte mais gostosa do trabalho.  É onde encontro o público mais sincero, as crianças. Se não gostam dizem na cara e se gostam, abrem um sorriso que te mostra o quanto o seu trabalho é importante.  

JH - Na sua caminhada você ja se destacou no desenho das histórias em qudrinhos, fale um pouco sobre isso.

B - O quadrinho é algo mais artístico do que a charge. Acredito que 90% dos desenhistas que conheço sonham em ter uma HQ nas bancas. Já tive alguns quadrinhos pessoais publicados (Brummmmm!!! e Supereróis) mas a grande maioria das histórias que vão para as ruas aqui no Brasil são de terceiros, pessoas que tem a verba mas não tem o talento. Eu mesmo, na época que fazia parte de uma equipe lá no Rio desenhei muita revista pro Renato Aragão (Didizinho).

 

JH - O que você realmente quer expressar nas suas charges?

B - Quero mostrar que o povo não é tão ingênuo. Que a gente se faz de bobo pra sobreviver. Que sabemos que aquele aperto de mão foi apenas uma jogada política. Que aquele ônibus demora horas pra passar no ponto por simples descaso. Muitas vezes sou criticado por isso. Já recebi puxões de orelha pra pegar leve. Mas eu só pego pesado porque os personagens das charges pegam também. No dia que eles merecem elogios sou o primeiro a fazer. Já teve locais que me pediram pra mudar esse comportamento por questões comerciais. O fato é que o leitor quando olha a charge, não vai saber que puxei o saco aqui pra garantir um anúncio ou porque o político é amigo do editor, e quem vai levar a fama de vendido vai ser eu. Prefiro perder o emprego a ganhar esse nome. Faço a charge para o leitor e não para o setor comercial.

JH - Classifique sua obra?

B - Não classifico minha obra, e sim meus lápis. Eles são armas em minhas mãos. E é tudo que preciso pra sobreviver: um grafite e um punhado de papel pra rabiscar.

JH - O que é arte pra você?

B - Meu conceito de arte é meio diferente. É algo bonito que fazemos por prazer. Ela está em tudo. Uma comida feita com prazer é uma arte. O catador de lixo que transformou a lata de óleo em um carrinho é um artista. O carinha que passou o dia varrendo as ruas e a noite toca uma viola numa roda de amigos é muito mais artista que aquele músico famoso que no programa ao vivo precisou ler a letra da própria música. Eu mesmo me acho mais desenhista do que artista. Mas isso é uma opinião pessoal e não uma verdade absoluta. 
 
JH - Brum por Brum? 

B - Sou o cara mais cabeça dura que conheço. Se eu cismar que o céu é amarelo eu vou dá um jeito de convencer o povo ao meu redor disso. E pense num carinha chato defendendo suas idéias. Mas se no final vejo que estou errado, morro de rir com minha burrice. Sou um imã de doidos, só têm maluco ao meu redor, alguns com direito a tratamento médico, mas adoro isso, pois meus amigos são minhas maiores inspirações. Faço amizade fácil, o bom humor ajuda nisso. Sou capaz de rir em enterro. Procuro não ver as pessoas como familiares, clientes ou patrões, procuro ver como amigos. Mas não pise no meu calo, pois sei ser o cara mais ranheta do mundo. Desenho de graça pra um amigo, mas não faço um rabisco pra uma pessoa que não gosto nem por um milhão. Falo na cara o que sinto, mesmo que machuque o outro, se isso é um erro, eu ainda acho a falsidade pior. Não me prendo a nada material. Se me prendesse ainda estaria no Rio no conforto da casa dos meus pais. Como todo carioca, amo um boteco. Quer me ganhar? Me de um bom prato de feijoada. Quer me perder? Grite comigo.

 

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